DireitoUEM Turma 1 – Publicação de Pesquisa

Clonagem humana: aspectos teológico, ético e jurídico

Posted on: 6 de Setembro de 2011

Clonagem humana: aspectos teológico, ético e jurídico

 Elaborado em 02/2007.

 INTRODUÇÃO

 O Reino Unido foi o primeiro país a aprovar uma lei que autoriza a clonagem de embriões de seres humanos, proibindo, contudo, a clonagem para fins reprodutivos. A permissão para clonar embriões, segundo os defensores da nova modalidade de manipulação genética, visaria à cura de doenças degenerativas graves, como o mal de Alzeimer, e à regeneração e substituição de células doentes. Desde a primeira experiência de clonagem com a ovelha Dolly, em 1997, até a decisão do Parlamento inglês, que autorizou a clonagem de embriões humanos, a ciência tem despertado sentimentos de euforia, preocupação e até mesmo de fúria.

A euforia se percebe em grande parte do meio científico. A ciência, ao mapear a genética, conseguiu o trunfo de possibilitar que doenças, geneticamente herdadas, pudessem ser evitadas, com a substituição das células degeneradas por outras sadias. A partir da clonagem de animais, o mundo assiste, como se não acreditasse, ao grande passo para a reprodução humana clonada. [02] Porém, ao lado da euforia, percebe-se, mesmo dentre os cientistas, a preocupação quanto à rápida utilização dos embriões humanos, sem uma pesquisa mais aprofundada da nova espécie de manipulação. Outros pensadores e filósofos invocam a bioética para discutir os efeitos éticos resultantes da clonagem humana: o clone é um ser com identidade própria? É portador de direitos e tem uma personalidade capaz de ser individualizado como ser humano na sociedade? A fúria advém de grupos religiosos e conservadores que encaram a clonagem humana como a destruição da vida e a inversão de valores espirituais e religiosos.

Neste trabalho, apresentamos, de forma sumária, três aspectos que consideramos importantes à abordagem da clonagem humana: os aspectos teológico, ético e jurídico. Contudo, antes de abordarmos os aspectos fundamentais que envolvem a temática, apresentamos, à guisa de introdução, algumas notas propedêuticas fundamentais ao estudo da clonagem humana, quais sejam, a bioética, o biodireito, os direitos fundamentais e o princípio da dignidade da pessoa humana. O objetivo de serem definidos esses temas é consolidar, ainda que sumariamente, conceitos que serão utilizados nos capítulos principais. Este ensaio tem, única e exclusivamente, o propósito de suscitar certas indagações a respeito da clonagem humana, sem qualquer pretensão de esgotar ou dogmatizar conceitos, sejam quais forem as suas vertentes. 

 1. NOTAS PROPEDÊUTICAS

 

1.1 Clonagem Humana

Clonagem significa a reprodução assexuada de um ser humano, a partir de uma célula ou de um conjunto de células, geneticamente manipuladas. A clonagem pode ser realizada de duas maneiras. A reprodutiva, objetivando a reprodução de clones; e a não-reprodutiva, feita para fins terapêuticos, com a finalidade de produção de tecidos ou órgãos, partindo de embriões ou células imaturos, com capacidade de auto-regeneração, com o fito de reparar tecidos danificados. A clonagem humana enfrenta alguns problemas, como, por exemplo, a instabilidade genética, que pode resultar em deficiência ao desenvolvimento fetal, advindo, conseqüentemente, problemas fisiológicos de difícil reparação. Porém, os cientistas afirmam que esses problemas não ocorrem com a clonagem terapêutica usada em transplantes para a substituição de células defeituosas. Neste caso, a utilização das células-tronco produz resultados satisfatórios.

 

1.2 Ética, Bioética e Biodireito

Adolfo Sanchez Vasquez define ética como “a teoria ou ciência do comportamento dos homens em sociedade” ···, que investiga os postulados que envolvem a moral. Contudo, é preciso diferenciar ética e moral. Enquanto esta se expressa como manifestação do comportamento humano em diversos contextos culturais, aquela é empírica, porque busca desvendar o comportamento moral da humanidade. O mundo da moral é fático, exterior e palpável, a ética, ao revés, terá sempre um método para investigar a experiência dos fatos morais. Por isso, é perfeitamente possível falar em “morais” como manifestações históricas e contextualizadas de comportamentos humanos, tendo a ética, por seu turno, uma preocupação mais isenta e metodológica, ao circunstanciar um objeto a ser investigado, com pretensão de universalidade.

A bioética se propõe a estabelecer uma conexão entre a vida biológica e a ética. A manipulação dos instrumentos científicos, com o seu conseqüente emprego na vida humana, permite construir um conhecimento “interdisciplinar, ligado à ética, que investiga, na área das ciências e da saúde, a totalidade das condições necessárias à administração responsável da vida humana, em geral, e da pessoa humana, em particular”.

O biodireito se utiliza, metodologicamente, dos estudos da bioética e da biogenética, construindo um estatuto jurídico regulador das ações que afetem à vida, privilegiando a ética como vetor primordial da atuação científica. As regras jurídicas deverão preservar a dignidade humana contra a coisificação do ser humano. Destarte, a ciência deixa de ser um fim em si mesma e passa a ser um instrumento a favor da integridade dos valores sociais. Neste sentido, a Constituição Federal, em seu art. 225, parágrafo 1º, inciso II, proclama, ser missão do Estado, “preservar a diversidade e a integridade do patrimônio genético do País e fiscalizar as entidades dedicadas à pesquisa e manipulação de material genético”.

 

 1.3 Direitos Fundamentais e Dignidade da Pessoa Humana

Os direitos fundamentais se enraízam nas garantias clássicas liberais, conquistadas a partir das revoluções francesa e americana, dentre outros precedentes históricos, nos quais se inserem, latu sensu, — os direitos econômicos, políticos, culturais e os direitos sociais –, stritu sensu, – direitos dos trabalhadores – que advieram das conquistas das classes trabalhadoras e das transformações sociais geradas pelas contradições resultantes da relação capital-trabalho, o que resultou, por seu turno, no exaurimento do Estado Liberal e no conseqüente surgimento do intervencionismo do Estado de Bem Estar Social.

Nas constituições modernas, os direitos fundamentais ocupam um lugar de primazia, objetivando a materialização do ideal meramente formal de liberdade e igualdade forjado pelo liberalismo clássico. A nova ordem constitucional exige que as políticas públicas sejam implementadas visando à situação concreta do homem e da mulher, com a concretização dos direitos fundamentais. A dignidade, por sua vez, somente é vivenciada, plenamente, com a satisfação da cidadania, exigindo-se, dos diversos atores sociais, a construção de uma sociedade justa, livre e solidária, objetivos somente alcançados, por sua vez, quando são erradicadas a pobreza, a miséria e as desigualdades sociais e regionais, conforme prescrevem os incisos III e IV do artigo 3º da Constituição Federal de 1988. Nesse sentido, os direitos fundamentais transformam o indivíduo em cidadão consciente de seus direitos e obrigações, cônscio de sua integridade e do compromisso com os destinos da sociedade, o que contraria, conseqüentemente, a concepção liberal, que vê no ser humano um indivíduo isolado, egoísta e distanciado da solidariedade. É nessa linha de raciocínio que assinala Antonio E. Perez Lunõ, serem as normas que sancionam o Estatuto dos direitos fundamentais em conjunto com aquelas que prescrevem a forma de estado e as que estabelecem o sistema econômico decisivas para definir o modelo constitucional de sociedade. Os direitos fundamentais são, em síntese, a expressão de valores ou decisões axiológicas de uma determinada sociedade, consagrada na normativa constitucional e conformando todo o ordenamento jurídico infraconstitucional.

O princípio da dignidade da pessoa humana ocupa o epicentro do ordenamento jurídico, sendo o ser humano o seu mais importante protagonista. A dignidade humana, para ser efetiva, exige o respeito aos direitos fundamentais e a exclusão de qualquer espécie de coação ilegal externa, que impeça o desenvolvimento da personalidade. É íntima a relação entre direitos fundamentais e dignidade da pessoa humana, sendo certo que a dignidade da pessoa se traduz como “medida dos direitos” (direitos fundamentais), de tal sorte que, em regra, a violação de um direito fundamental estará sempre vinculada à ofensa da dignidade da “pessoa”. Nesse sentido, o constituinte brasileiro de 1988 foi categórico ao inscrever, no inciso III, do art.1º, da Constituição brasileira de 1988, o princípio da dignidade da pessoa humana como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil, além de estatuir a existência digna como vetor da ordem econômica, no caput do art. 170.

 2. ASPECTOS TEOLÓGICOS DA CLONAGEM HUMANA

Teologicamente, Deus é o criador do universo, incluindo o homem e a mulher: “Deus criou o homem e a mulher e lhes disse:” Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra “(Gen.1:26-31). Porém, ao sujeitar o mundo ao ser humano, como está escrito na própria passagem que transcreve a criação, Deus concedeu aos homens e mulheres a permissão para sujeitar o seu “habitat”. Não há limites à razão humana porque Deus permitiu que o ser humano, por meio da utilização de sua inteligência, fosse capaz de promover todas as transformações que pudessem tornar o mundo um lugar melhor para fruição da existência. Ademais, o ser humano foi equiparado a Deus em grandiosidade, dentre todos os seres da criação, conforme está previsto na Bíblia: “Eu disse sois deuses, sois todos filhos do altíssimo”. (Salmo 82:6 e João 10:34). Separados, e ao mesmo tempo indissociavelmente unidos ao cosmos, homem e mulher são investidos na missão de habitar, povoar e transformar o mundo. Destarte, o ser humano é apresentado como a novidade inigualável da criação. Porém, a singularidade humana advém de sua composição espiritual. Formado de corpo e alma, o ser humano diferencia-se dos outros animais irracionais porque a alma humana é “uma substância criada, viva e racional, que confere, por si mesma, a vida e a sensibilidade a um corpo organizado e suscetível de sensações”. E o corpo, como se apresenta teologicamente? Na verdade, não se pode separar corpo e alma. Ambos compõem, harmoniosamente, a essência da criação, porque “como o corpo necessita da alma, assim a alma precisa do corpo: a sensibilidade seria impossível sem uma natureza material, e a potência intelectiva não poderia atuar sem a sensibilidade”. O ser humano é, por conseguinte, o resultado perfeito e inseparável da união entre alma e corpo. Nessa perspectiva teológica, não se pode justificar a clonagem de um corpo, porque a criação resulta de um ato em que a criatura é gerada de forma indivisível, por meio de uma humanidade integrada inteligentemente. Contudo, a criatura não é escrava do criador. A racionalidade demarca a separação entre o ser humano e os outros animais irracionais. Para Santo Agostinho, a criação do ser humano, à imagem e semelhança de Deus, significa a elevação, em dignidade, do ser humano acima de todos os seres viventes: “Vemos a face da terra embelezar-se com animais terrestres. Vemos o homem, criado a Vossa imagem e semelhança, constituído em dignidade acima de todos os viventes, isto é, por virtude da razão e da inteligência”.O mesmo entendimento é compartilhado pelo teólogo Paul Tillich: “o homem é livre, na medida que é capaz de receber imperativos incondicionais, morais e lógicos, que indicam que ele pode transcender às condições que determinam todo o ser finito”. Porém, uma pergunta se impõe: o homem é livre ilimitadamente? Existem limites teológicos à liberdade humana? Certamente que a resposta implica na investigação tanto dos meios quanto dos fins da atuação humana. A ciência não pode clonar corpos sem levar em consideração a dignidade inerente a cada indivíduo. A dignidade da pessoa humana, aqui entendida como limite intransponível de respeito à individualidade, implica na rejeição da clonagem, se for utilizada como mero instrumento de manipulação genética.

A liberdade humana é condicionada, não em função de ter Deus criado um ser escravo e limitado, mas porque o respeito à dignidade humana nega, de forma absoluta, que o ser humano utilize o seu semelhante como objeto. Para que a clonagem fosse aceita teologicamente, haver-se-ia de reconhecer, a pessoa clonada, as dimensões corpórea e espiritual de todo ser humano. A indissociável unidade do corpo e espírito, que justifica a dignidade cristã, repele que o ser humano assuma a função de criador e de manipulador dos seus semelhantes. Por essas razões, algumas questões continuam sem resposta ante uma possível aceitação da clonagem: Essa nova criatura será utilizada para que fins e propósitos? Esse novo ser clonado tem uma alma e pode ser considerado filho de Deus? Esses questionamentos estão no cerne da preocupação teológica que desafiam os líderes espirituais das diversas denominações religiosas.

 

3. ASPECTOS ÉTICOS DA CLONAGEM HUMANA

O desafio ético está em saber se o homem é livre para fazer o que bem entende ou se é condicionado por determinadas circunstâncias. Carlos Santiago Nino critica, enfaticamente, o determinismo em suas diversas dimensões [22]. O determinismo afirma que todo evento tem uma causa, retirando-se do indivíduo qualquer responsabilidade pela prática de suas ações. A aceitação de um determinismo, que isenta os indivíduos de suas responsabilidades, é uma ameaça à relevância moral da vontade humana, pois os homens não teriam efetiva liberdade para atuar, não lhes podendo atribuir quaisquer responsabilidades por seus atos. Na verdade, há uma verdadeira antítese entre a defesa do determinismo e a posição oposta, que postula levar seriamente em consideração à vontade das pessoas no seio das instituições sociais, porque toda a vida em sociedade, nas circunstâncias mais adversas, está baseada na adoção, em maior ou menor grau, do princípio oposto ao determinismo, que pode ser denominado por dignidade da pessoa humana.

O princípio da dignidade da pessoa humana significa que, em primeiro lugar, o ser humano deve ser tratado segundo suas ações, intenções ou manifestações de consentimento. É inaceitável uma ciência que não assuma as conseqüências dos seus resultados. A ciência não caminha inexoravelmente a um futuro incerto. Os postulados científicos devem levar em consideração que os seres humanos são responsáveis eticamente pelos seus atos. Não se pode clonar seres humanos defendendo-se, como discurso legitimador, que a clonagem é inevitável ou é um resultado do avanço científico. Um determinismo científico, que assuma a defesa de uma reprodução humana a qualquer custo, molda um modelo de ciência irresponsável e amoral. Acresça-se que a tese defendida de que a clonagem será um bem irrecusável à coletividade conduz à negação da própria pessoal humana, compreendida como valor-limite da ordem jurídica.

Em segundo lugar, o princípio da dignidade da pessoa humana significa que os indivíduos são seres responsáveis pelos seus atos. O clone humano, entendido como extensão de outro ser resulta na crença de que um indivíduo pode ser dependente de uma outra individualidade. Com razão afirma Jürgen Habermas que “ninguém deve dispor de uma outra pessoa e controlar as suas possibilidades de ação, de tal modo que seja roubada uma parte essencial da liberdade da pessoa dependente. Essa condição é violada quando uma pessoa decide o programa genético de uma outra”. Neste sentido, há um ponto de contato entre o pensamento de Carlos Santiago Ninõ e Jügen Habemas. Nino entende que o determinismo é uma ameaça à autonomia do indivíduo, criando um ser eticamente irresponsável, enquanto Habermas diz que “o clone assemelha-se ao escravo, na medida em que ele pode empurrar para outras pessoas uma parte da responsabilidade que normalmente deveria caber a ele mesmo”. Por conseguinte, a clonagem resultaria na criação de um indivíduo eticamente inferior e irresponsável pelos seus atos.

4. ASPECTOS JURÍDICOS DA CLONAGEM HUMANA

A personalidade deve ser o ponto inicial da discussão sobre os limites jurídicos à clonagem humana. Segundo o Código Civil, “a personalidade civil do homem começa no nascimento com vida; mas a lei põe a salvo, desde a concepção, os direitos do nascituro” (art. 4º). Advêm do direito da personalidade, segundo lição de Pontes de Miranda, os direitos, as pretensões, ações e têm como características a irrenunciabilidade, inalienabilidade e a irrestringibilidade. São “direitos irradiáveis dele os de vida, liberdade, saúde (integridade física e psíquica) honra, igualdade”. Deste conceito clássico, passa-se ao reconhecimento constitucional dos direitos fundamentais, acrescentando-se, além dos já citados, o direito à privacidade, que se desdobrará, por sua vez, no direito à intimidade, à vida privada e à imagem. Esses direitos são classificados por Paulo Bonavides direitos fundamentais da primeira geração, “os primeiros a constarem do instrumento normativo constitucional, a saber, os direitos civis e políticos, que, em grande parte, correspondem, por um prisma histórico, àquela fase inaugural do constitucionalismo do ocidente”. Na verdade, os direitos inerentes à personalidade correspondem a um dever que se impõe de não se intrometer nem permitir violação ao conjunto de direitos que protegem a personalidade dos cidadãos.

A clonagem de seres humanos encontra óbice em inúmeros direitos fundamentais. O direito à vida é “o direito à existência, de estar vivo, de defender a própria vida, de permanecer vivo. É o direito de não ter interrompido o processo vital senão pela morte espontânea e inevitável”. Se o ser clonado não tiver direito de dispor de sua própria vida, estar-se-á diante da negação à própria humanidade. A vida também impõe o respeito à integridade física. Desde o Código de Nuremberg, que repeliu as experiências desumanas em pessoas, a utilização de seres humanos em experiências científicas é inadmissível, se não houver o consentimento livre e voluntário do indivíduo. Seria retrocesso histórico a perspectiva de criação de seres humanos como cobaia de experimentos ou até mesmo como fornecedores de órgãos. A liberdade também restaria violada, porque o clone, concebido como ser dependente geneticamente de outro, não gozaria de autonomia suficiente para se impor como pessoa livre e soberana de seus atos e ações. Segundo Habermas, refletindo especificamente sobre a clonagam humana, a relação de dependência entre o gerador e o gerado “diverge das conhecidas relações interpessoais, à medida que subtrai a possibilidade de transformação em uma relação entre iguais”, porque, no seu entender, o princípio constitucional da igualdade repele, categoricamente, o tratamento desigual entre seres humanos, seja qual for a sua origem genética.

Constitui-se, ademais, noutro óbice à clonagem humana, o respeito universal aos direitos humanos conquistados desde a Revolução Francesa de 1789. Praticamente todas as constituições democráticas do mundo e inúmeros documentos internacionais e nacionais parecem rejeitar, explicita ou implicitamente, a clonagem de seres humanos, considerando-a incompatível com o princípio da dignidade da pessoa humana.

CONCLUSÃO

As indagações suscitadas sobre a clonagem humana ainda amadurecerão. A ciência não pára os seus experimentos com a clonagem humana e as discussões continuam gravitando em torno dos desafios científicos ou ético-religiosos, como se a ciência pudesse prosseguir a sua trajetória incólume aos desafios éticos. As reflexões expostas brevemente neste artigo serviram para demonstrar que o avanço das recentes técnicas de reprodução humana, bem como as descobertas das novas fronteiras da genética, exigem muito mais que uma abordagem meramente científica. A manipulação desses novos mecanismos implica no questionamento de diversos valores e dogmas culturais, éticos, religiosos e científicos. A pergunta crucial que se faz é a seguinte: existem limites à utilização dos conhecimentos científicos? A bioética, associada aos valores éticos, responderá que sim. A biotecnologia deve ser utilizada para dignificar a saúde do homem e, ao mesmo tempo, preservar-lhe a sua dignidade como pessoa. O ser humano não pode ser utilizado como experimento.O custo da integridade física e espiritual não justifica a utilização de quaisquer métodos de manipulação genética. O biodireito assume, nesta perspectiva, um papel fundamental. As normas jurídicas, protetoras dos direitos fundamentais, não são óbice ao desenvolvimento da ciência, antes, constituem-se, ao contrário, num instrumento de proteção do ser humano contra possíveis agressões à sua dignidade.

Luiz Hildebrando Pereira da Silva

 A pesquisa biológica tem-se revelado para a sociedade, nos últimos tempos, uma fonte de preocupações e de angustias. Foi-se o tempo em que se identificava a imagem do pesquisador com a do velho bonachão de longas barbas brancas, olhar doce e gesto tranqüilizador. Hoje, na imagem popular, o pesquisador biomédico identifica-se mais com a figura de um jovem agitado, descabelado e um pouco desequilibrado, a refletir sobre diabruras e feitiçarias, transformando sapos em lagartos, criando dinossauros a partir de mosquitos fósseis, construindo quimeras animais.

Foi assim que não nos causou surpresa o impacto mediático dos trabalhos dá equipe do Dr. Stillman, da Universidade George Washington, nos EUA, publicado recentemente na revista Science (1). A experiência consistiu na multiplicação in vitro de célula embrionária humana, dando origem a uma série de cópias capazes, em princípio, de originar organismos humanos idênticos. Esse tipo de manipulação — comumente chamado de clonagem celular — é realizado de maneira rotineira em roedores, bovídeos e outros animais e não apresenta em si qualquer originalidade biológica, em termos científicos. Entretanto, pelo fato de ser realizada com material de origem humana, gerou reações hostis as mais diversas: o presidente francês Mitterand, republicano e laico, qualificou a experiência de “procedimento insuportável”; o Observatore Romano registrou a condenação sem apelo de Sua Santidade; o Parlamento europeu propôs a interdição de experiências com embriões humanos. Vozes unânimes se elevaram nas .diferentes áreas da Sociedade Civil para exprimir inquietude e exigir a regulamentação ética da experimentação utilizando embriões, tecidos e órgãos humanos. A opinião pública interroga os cientistas na busca de explicações, de orientação ou, ao menos, de informação.

Cremos, assim, ser útil abordar certos problemas invocados em torno das experiências de Stillman. Os progressos das ciências básicas e de suas aplicações médicas colocam, sem dúvida, problemas éticos novos. É necessário abordá-los e procurar definir códigos que compatibilizem os novos recursos de intervenção com a tradição e o progresso cultural das sociedades, dentro do respeito à individualidade e à dignidade da pessoa humana. Entretanto, é talvez mais urgente desdramatizar certos aspectos de problemas que despertam fantasmas do inconsciente e são levantados por razões demagógicas, falsamente científicas, desvirtuando o debate.

Tratemos, pois, de dois aspectos profundamente explorados pela mídia em torno das experiências de clonagem e que provocaram profundo mal-estar na opinião pública.

O primeiro, coloca a problemática do admirável mundo novo, de Huxley, com o pânico que desperta a idéia de alguém poder, com objetivos eventualmente maléficos, fabricar centenas ou milhares de indivíduos humanos idênticos. Esse aspecto teria sido provavelmente ignorado, no que se refere às experiências de Stillman, se o autor, ele mesmo, para se defender dos ataques do Observatore Romano não assumisse posição de indignação ética ao proclamar que o “direito à procriação é um dos direitos fundamentais do gênero humano” (2). Parece portanto que, para Stillman, as experiências de clonagem de embrião teriam um valor positivo para abrir possibilidades novas de procriação. Teriam mesmo?

Pretender que os embriões clonados ofereçam maiores possibilidades de sucesso ou garantias particulares sobre a qualidade do produto de concepção é atitude arriscada. Pode-se criar o mesmo tipo de ilusão, que beira à vigarice, desenvolvida por certa empresa americana que gerou um banco de esperma de prêmios Nobel. Na verdade, todos sabem que um prêmio Nobel, como qualquer outro ser humano fértil do sexo masculino, produz espermatozóides de grande diversidade. A chance para que um espermatozóide de suas entranhas reúna combinação de genes correspondente a que o conduziu à glória efêmera é equivalente à chance que um outro exemplar reúna combinação dando origem a um débil mental. Quando o público foi esclarecido sobre esse ponto, o esperma de prêmios Nobel saiu da moda. Será que agora querem vender embriões pré-fabricados? E em série?

Um embrião, verdade seja dita, é geneticamente constituído e tem um potencial determinado. Mas nem por isso ele é mais seguro de conter um bom potencial. Simplesmente porque um potencial genético não pode ser avaliado senão por sua realização, isto é, deixando-o exprimir-se em meio definido. Ora, isso quer dizer, em termos de embriões humanos, que se deve esperar que ele nasça e viva para se saber o que vale. Dever-se-a, portanto, nas putativas clínicas especializadas de embriões clonados, oferecer aos clientes copias de embriões já submetidos aos ensaios.

O que é um ensaio para um embrião humano? E simples. E uma experiência de vida. E o resultado de suas realizações no decurso da existência, ou seja, para um embrião de origem brasileira, segundo as expectativas de vida ao nascer, uma média de 65 a 70 anos de observação. Mas, além disso, deve-se considerar que as realizações da vida, a partir do potencial genético, dependem de uma série enorme de fatores aleatórios que começam cedo para um embrião: de início, as incompatibilidades materno-fetais conhecidas e desconhecidas no plano neuro-endocrinológico, imunológico e outros; em seguida, a aventura de se adaptar à bacia pélvica da mãe de adoção, que irá estabelecer as condições do parto e suas repercussões futuras.

A seguir, depois do nascimento, o embrião que virou Homem deverá enfrentar as enormes variações de meio — físico e social —, de educação, de higiene, de normas impostas ou adotadas etc. Isto implicaria, segundo critérios científicos, que as eventuais clínicas produtoras de embriões clonados, antes de poder oferecer cópias às clientes, lançassem de início uma série de exemplares em ensaio, tendo em conta o número de variáveis implicadas, para que a experiência tivesse significação estatística. Deve-se, portanto, admitir que a clínica encontraria o número necessário de mães de ensaio. Em seguida, que ela organizasse o exército de especialistas que deveriam observar discretamente a experiência de vida de cada embrião experimental, desde a implantação uterina até o nascimento e, depois, até a morte. A clínica poderia então, em meados do século XXI, oferecer às clientes candidatas um quadro de probabilidades de performances dos exemplares congelados de embriões clonados em seu poder. Mas, como daqui até lá as condições de meio físico e social teriam mudado profundamente, a experiência teria pouco ou nenhum valor.

O grande geneticista Benno Müller Hill, professor da Universidade de Colônia, exprimia recentemente, na revista Nature (3), sua inquietação a respeito da evolução das pesquisas sobre o genoma humano e o receio de que as pesquisas anônimas sobre fatores genéticos da inteligência e/ou da predisposição para as doenças mentais pudessem conduzir à formulação de bases genéticas para justificar as injustiças sociais ou o racismo. A experiência histórica revela, com efeito, que sempre se encontra alguém capaz de fazer qualquer coisa, por pior que seja. Como os geneticistas não escapam à regra, é possível que se encontre entre eles os que aceitariam desenvolver a clonagem de embriões humanos e, mesmo alguns, que iriam fazer a publicidade de seus clones com experiências cientificamente significantes realizadas há cinco ou dez anos. Como os wiskies e os conhaques. Mas é também evidente que tais procedimentos poderão ser facilmente enquadrados no Código Civil, sem necessidade de qualquer novo código de ética.

Examinemos agora o segundo aspecto, que impressionou muito a opinião pública, com relação às experiências de clonagem. Trata-se do que se pode chamar de complexo do sósia. Insinuou-se, em certos comentários da imprensa, que um embrião congelado, de quem seriamos irmão(ã) gêmeo(a), nos seria de grande utilidade, no momento de um transplante de órgão, à vista da compatibilidade absoluta de nossas células e de nossas secreções. Teríamos, assim, à disposição, em reserva, verdadeiros retratos à maneira de Dorian Gray, a quem transferir nossos males e defeitos, conservando a juventude eterna. A temática, plágio à parte, prestou-se a muitas obras de ficção científica de valor duvidoso. Pode isso ser levado a sério?

Desenvolvem-se atualmente pesquisas sobre culturas de células e tecidos embrionários ou fetais a serem utilizados eventualmente em transplantes terapêuticos para doenças hipofisárias, do sistema hematopoiético, entre outras. Essas pesquisas envolvem procedimentos cuja regulamentação ética não foi até agora bem-definida. Certamente é necessário fazê-lo. A regulamentação ética da intervenção médica na procriação deve também desenvolver-se em face dos progressos técnicos atuais. Tudo isso nada tem a haver com o sósia congelado.

Com efeito, um embrião congelado nosso irmão, não seria de qualquer utilidade. Para que ele fosse útil, seria necessário deixá-lo nascer ao mesmo tempo que nós mesmos, ou ao menos em épocas aproximadas. Ora, tal decisão não pode ser tomada por um recém-nascido, mas apenas pelos pais adotivos que deverão providenciar a procriação de um irmão ou irmã gêmea em mãe portadora benévola ou remunerada. Além disso, se tal procedimento fosse observado, de nada valeria sem que a informação chegasse ao nosso conhecimento na idade de razão. Ficaríamos, assim, informados da existência de um sósia, em caso de necessidade. Esse cenário coloca, entretanto, problemas incontornáveis: Por exemplo, seria necessário assegurar-se da cumplicidade do sósia, difícil de imaginar, ou mantê-lo na ignorância, mas ocupar-se de seu bem-estar e de sua higidez. Difícil! Sem falar nas indiscrições eventuais que nos deixariam em situação inconfortável de ter de agir como o cow-boy Lucky Luke o que atira mais rápido que a sombra.

De tudo o que acabamos de dizer pode-se pensar que sejamos indiferentes às experiências da equipe Stillman. Muito pelo contrário. Se fôssemos membros da comissão científica do órgão financiador da experiência (que deve ter custado caro) teríamos emitido o julgamento seguinte:

“Os autores pretendem mostrar que é possível obter clones de células embrionárias toti-potentes, a partir de embriões humanos. O fenômeno é observado em condições naturais, no caso de gêmeos univitelinos e não há, portanto, a esperar resultados científicos originais. Quanto ao aspecto técnico, a clonagem experimental foi abundantemente demonstrada e é de utilização corrente em roedores, ruminantes e outros mamíferos. A proposição de clonagem de embrião humano não teria assim outro objetivo senão o de demonstrar ainda uma vez que o homem é um mamífero, fato conhecido mesmo antes de Darwin. Quanto ao interesse prático da operação ele pode ser considerado nulo. Financiamento recusado.”

Fontes:

PEIXINHO, Manoel Messias. Clonagem humana: aspectos teológico, ético e jurídico. Jus Navigandi, Teresina, ano 16, n. 2815, 17 mar. 2011. Disponível em: <http://jus.uol.com.br/revista/texto/18682>.

SILVA, Luiz Hildebrando Pereira da. Sobre a clonagem de embriões: código de ética e código penal. Estudos Avançados, São Paulo, vol.8 n.20, Jan./Apr. 1994.

 

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